Está imperdível!

 

Ampliada e enriquecida, é publicada a 2ª edição de A Grande Partida: Anos de Chumbo de Francisco Soriano, reclamada por muitos dos que não conseguiram seu exemplar da primeira, que foi rapidamente esgotada. Novos personagens, capítulos, fotos e apêndices agora saltam à nossa frente, reavivando a memória dos menos jovens e revelando mais histórias aos jovens, que não viveram o período da tristemente célebre ditadura dos generais, entre 1964 e 1985.

 

Para uns e outros valeu a pena esperar. Por si sós, esses novos fatos e personagens mereceriam detalhamento em outras obras específicas.

 

Assim é com o capítulo "Trama Imperial", em que o embaixador americano da época, Lincoln Gordon, e o coronel Vernon Walters, diretor da CIA, entram em cena. Com eles, os generais brasileiros Castelo Branco, Cordeiro de Farias, Sizeno Sarmento, Golbery do Couto e Silva e outros, tramaram o golpe.

 

"E o Operário Disse: NÃO!", "Cálice" e "A Verdadeira História" são outros dos acréscimos, que fustigam nossa memória, com repulsa natural aos torturadores e simpatia carinhosa aos torturados, mortos e desaparecidos.

 

Outros capítulos também se materializam diante de nós, como se a vivência fosse agora; como se aqueles acontecimentos épicos estivessem se desenvolvendo diante de nossos olhos, neste momento da leitura: é o caso dramático do sargento José Milton Barbosa.

 

Quem conhece também o caso dos jornalistas Luiz Edgar de Andrade e Jarbas da Silva Marques – este com mais de 10 anos nos cárceres políticos da ditadura – cobra, de biógrafos, livros específicos. Esses e outros heróis da resistência e do humanismo despertam nossa simpatia, como os irmãos Morais Coutinho, dentre os quais o médico Alcedo, cuja biografia Soriano inscreveu na "Galeria de Heróis" - Apêndice I deste livro e que foi companheiro do grande líder vietnamita Ho Chi Minh.

 

Soriano expõe toda uma galeria de idealistas valentes, que se destacam nesta nova edição. Muitos deles foram mortos já maduros, na tortura ou fora dela; outros foram assassinados ainda quase meninos, pelo "crime" de terem sonhos generosos, humanísticos ou de tentarem torná-los realidade para todos.

 

Nesta edição, a longa lista de torturados, mortos e desaparecidos antecede o apêndice de experiências profissionais de lutas contra a ditadura. Um desses apêndices registra até uma das confissões feitas por torturadores.

 

O livro está de tal maneira escrito que merece se tornar referência de estudos do século XX, sobretudo para alunos de História.

 

Revela muitos sofrimentos; mas, de permeio, é suavizado pelo delicado romance do Soriano quase adolescente com Maria Clara. Depois, paixão por Ivone, sua companheira de vida.

 

"Nossos inimigos de classe não alcançam que nascemos principalmente para cooperar e que a busca pela liberdade é algo intrínseco ao ser humano. É exatamente por isso que os venceremos", são fragmentos da carta que Soriano escreveu para sua companheira, Ivone, na prisão da ilha das Flores.

 

Além das vozes coadjuvantes de textos e depoimentos, Soriano escreveu de forma clara, sem ódio revanchista.

 

As expressivas ilustrações de João Sánches na capa, de Leda Aquarone e Mega nos capítulos, enriquecem a leitura. Elas nos fazem lembrar que o autor é um exímio campeão de xadrez. Eu o vi ganhar ou empatar muitas das dezenas de partidas simultâneas em que ele, sozinho, enfrentava os melhores jogadores, seus conterrâneos de Teófilo Otoni. Foi ao final desse espetáculo de inteligência, sensibilidade e resistência que compreendi por que havia derrotado tantos torturadores simultâneos: saiu de filiais do inferno vivo, íntegro, sem ódios.

 

Soriano conduz o leitor a tornar-se um enxadrista a cada lance desfechado pelos resistentes, como movimentos de uma partida imortal de xadrez.

 

Continua tranquilo e presenteando à Ivone, fiel parceira, aos filhos, parentes e amigos seu riso de criança, em folguedos e travessuras de manhãs de primavera. Mistura sempre seu sorriso às notas musicais dos instrumentos que toca bem. Por vezes, dá um xeque-mate verbal, de permeio a um riso maroto, em traquinices de menino grande.

 

Além de Ivone, seus quatro filhos podem falar melhor sobre o autor e o livro: Geraldo e Ruth nasceram com ele às voltas com suas prisões políticas; Sarah e Túlio, já com ele lutando por uma anistia e pela de seus companheiros de sonhos.

 

Eu fui apenas seu advogado, no desespero; hoje sou o amigo de dias melhores, mas não concluídos.

 

O livro retrata Francisco Soriano em suas dramáticas experiências com a ditadura e o altruísmo socialista; com sonhos humanistas da "utopia", que ele tenta converter em "topia" do bem para todas as pessoas.

 

Este é o autor e o livro que vejo nesta 2ª edição de "A Grande Partida: Anos de Chumbo". Imperdível!

 

 

Antônio Modesto da Silveira

Advogado - um dos mais atuantes defensores de presos  políticos