Vim a conhecer o autor de A grande partida:Anos de Chumbo no Movimento em Defesa da Economia Nacional (MODECON), então presidido por Barbosa Lima Sobrinho. Desde logo encantaram-me em Francisco Soriano as qualidades humanas de pessoa cordial, fraterna e prestativa. Juntos participamos de várias lutas até que veio a honrar-me com o convite para a apresentação de seu livro de memórias.

 

Soriano nele faz um inventário de episódios de sua vida de militante, a que foi levado por uma precoce preocupação com a questão social e com os desdobramentos da luta pelo desenvolvimento do país na conjuntura do início dos anos 60. Preocupações que foram comuns a todos os jovens daquele tempo, que com ele comungaram os mesmos dilemas, as mesmas perplexidades e as mesmas angústias.

 

De repente, a fúria iconoclasta dos profetas do passadismo abateu-se com violência sobre o Brasil. Setores civis inconformados com as mobilizações populares empurraram os militares para a arena política. É bom que se lembre: não foram os militares sozinhos. Foram civis oportunistas e irresponsáveis, frustrados por sucessivas derrotas eleitorais, que os arrastaram à intervenção na vida política brasileira. Nesse sentido, considero incorreto referirmo-nos a governos “militares”. Na verdade, eles sempre tiveram grande participação civil.

 

O golpe de 1964 foi o grande choque da nossa geração. Foi o divisor de águas. Ali nossos sonhos rolaram ribanceira abaixo e a brutalidade dos “donos” da situação obrigou-nos a um rápido amadurecimento, talvez até precoce em companheiros mais jovens. 1964 marcou-nos pelo resto da vida: a universidade castrada, vocações políticas frustradas no nascedouro, salas de aula infiltradas por agentes da repressão e, para resumir, um clima de obscurantismo que tolheu as mais legítimas manifestações da inteligência nacional.

 

A truculência da reação pegou-nos de surpresa. Não há espaço para analisar se o golpe era ou não inevitável, ou se a esquerda cometeu erros. O fato é que os jornais foram tão perseguidos, que alguns acabaram por fechar. Dos “grandes”, sobraram no Rio O Globo e o Jornal do Brasil, hoje moribundo. Esta é a origem do monopólio do “sistema” Globo. A ditadura empresarial-militar já se foi; a de O Globo persiste, caso único mundial de monopólio de informação: rádio-jornal-TV. O maior partido de direita do Brasil. Nem Silvio Berlusconi, magnata italiano das comunicações e primeiro-ministro de seu país, conseguiu tanto.

 

É toda uma época que desfila ante nossos olhos: prisões, cassações, ameaças, violências, sequestros, interrogatórios, torturas, censura, atentados a bomba contra livrarias, bancas de jornais e instituições respeitáveis como a OAB e ABI, intimidações a advogados das vítimas. Como, aliás, revelam marcantes depoimentos, em apêndice, do advogado Modesto da Silveira, do professor Rubim Leão de Aquino e do jornalista Mário Augusto Jakobskind.

 

A “Galeria de Heróis” que Soriano inspiradamente inseriu em seu livro permite-nos um voo, ainda que curto, sobre os ideais, os sonhos e os desejos de mudança de toda uma geração. Sente-se nessas páginas a presença de um altruísmo que só a generosidade dos jovens admite. Mais do que uma dívida consigo próprio, paga Soriano, com este livro, uma dívida com a sua geração. E seus heróis, onde quer que estejam, verão que não foram esquecidos e haverão de entreolhar-se, comovidos, e repetir pela eternidade que os sonhos não morrem jamais.
 

 

Edson Teixeira Queiroz

Diretor Cultural do MODECON - Movimento em Defesa da Economia Nacional